sábado, 31 de outubro de 2026

Algumas reflexões e respigos sobre os protestos de rua em países europeus (1)

Paris, 2026 (c) Abdul Saboor/Reuters
(Este post foi dividido em duas partes, sendo esta a 1ª; a 2ª parte estará aqui)

Desde meados de Setembro que os media nacionais e internacionais vão dando conta das diversas manifestações de protesto e movimentos de descontentamento social em diferentes países europeus – ver aqui, aqui, aqui ou aqui. Os principais focos foram em França, com as manifestações espontâneas de estudantes de liceus dos arredores de Paris contra as condições deploráveis das escolas públicas, em particular, as das zonas mais desfavorecidas (ver p.ex. aqui), e em Espanha, com uma nova acampada na Puerta del Sol em Madrid, para contestar os preços exorbitantes das casas e as políticas de habitação (ver p.ex. aqui). A dimensão das mobilizações nos dois países foi notável, com um crescendo de adesão por parte de outras regiões e de outros sectores da sociedade. Os protestos estenderam-se depois à Bélgica e, mais recentemente, a Itália, à Albânia e também a Portugal. Em França, Itália, Bélgica, Albânia e Portugal alguns protestos geraram conflitos com a polícia de intervenção, que exerceu, em vários casos, repressão e violência injustificadas, e houve centenas de detenções. Em França e Itália houve também tumultos e pilhagens, embora tenham ocorrido paralelamente ou após as manifestações em registo pacífico.

Madrid, 2026 (c) Sergio Pérez

Apesar das origens do descontentamento, das formas de protesto e das reivindicações dos manifestantes apresentarem diferenças, o que unifica os diferentes movimentos de contestação é, por um lado, o facto de envolverem em larga medida gente jovem e, por outro, reflectirem um profundo descontentamento social: não só devido ao aumento do “custo de vida” (segundo as narrativas mediáticas dominantes), à deterioração dos serviços públicos e à ausência de perspectivas de futuro, mas também, relacionado com a incapacidade dos governos de providenciarem condições sociais satisfatórias e de mitigarem as fortes disparidades económicas e injustiças sociais – ver aqui ou aqui. Menos falados e mediáticos foram os protestos de jovens na Alemanha contra a reintrodução do serviço militar obrigatório (ver aqui e Nota 1). Nas últimas semanas, a atenção mediática tem-se focado nos distúrbios e confrontos com a polícia em França e Itália, num aproveitamento sensacionalista das imagens de “caos” e “desordem”, que distorcem as mensagens de quem se manifesta – ver vídeos de sites noticiosos: aqui (Channel 4), aqui (Aljazeera), aqui (France 24), aqui (DW) ou aqui (BBC).

Paris, 2026 (c) Lou Benoist/AFP
Irei começar nesta 1ª parte por tecer alguns comentários pessoais e, na 2ª parte, destacarei alguns artigos de análise ou de opinião que trazem uma diversidade de perspectivas críticas sobre os protestos, as suas causas e os seus impactos.

Tirana, 2026 (c) Reuters

Tenho ficado chocado com as reportagens (em particular, as dos
media dominantes internacionais – links acima) sobre os protestos e confrontos em França (e Itália), apelidados genericamente de “agitação social” ou “caos”, e que se focam maioritariamente nos episódios de tensão, violência ou vandalismo (por parte de alegados “desordeiros”). Embora alguns até refiram que grande parte dos protestos foram pacíficos e que os distúrbios só surgiram após as manifestações ou foram limitados a zonas específicas, em geral, optam pelo sensacionalismo simplista e despolitizante. E reflectem muito pouco sobre o que se passa, para além da questão dos aproveitamentos políticos - incluindo da extrema-direita. De facto, quando se referem às causas ou reivindicações, fazem-no de forma lacónica, atribuindo o descontentamento à subida do “custo de vida” e dos preços dos combustíveis, derivados das guerras em curso, reproduzindo assim as estafadas narrativas oficiais que querem empurrar as culpas para o contexto económico e geopolítico externo. Como se as causas não fossem mais profundas e mais antigas, envolvendo as políticas públicas implementadas por sucessivos governos de centro-direita ou centro-esquerda (o ‘centrão’) naqueles países. As reportagens escamoteiam muitas vezes a dimensão desproporcionada dos contingentes policiais e o facto das suas investidas sobre os manifestantes serem frequentemente violentas, mostrando como o poder se esconde por detrás da repressão. Preferem também ignorar as condições de sufoco em que muitas pessoas vivem, como se não fossem essas mesmas condições uma forma de injustiça e violência social. Claro que terá havido exageros dispensáveis e reprováveis, como pilhagens ou destruição, mas afinal parece que os polícias só estão lá para carregar sobre os manifestantes e nem sequer são capazes de proteger edifícios públicos ou lojas. Para uma desconstrução da narrativa da violência dos protestos, recomendo este vídeo sobre a situação em França ou este artigo que denuncia a distração induzida pela cobertura mediática, atribuindo a agitação social à quebra do contrato social entre governantes e cidadãos.

Lisboa, 2026 (c) Francisco Romão Pereira

Como venho pensando há algum tempo, parece passar ao lado de muitos analistas o facto do ‘centrão’ político nos diferentes países europeus ter andado, durante anos, a enganar os seus cidadãos com a historieta de que as benesses do crescimento económico e do progresso (neoliberal) iriam trazer prosperidade para todos e de que o elevador social iria funcionar – as pessoas só teriam de se esforçar e trabalhar arduamente (a narrativa da meritocracia). Só que as mentiras e as promessas não cumpridas pagam-se caro. O problema é que muitas daquelas promessas não eram sequer cumpríveis porque a ideologia económica que as sustenta é baseada em falsas premissas e em falácias – ver p.ex. alguns dos meus posts anteriores (aqui, aqui, aqui ou aqui). Para não falar do escamotear da catástrofe ambiental em curso – essa sim, uma tremenda ameaça existencial... (Mas isso é outra história)

Madrid, 2011 

Em relação às acampadas (Espanha e Portugal), ligadas à “crise da habitação”, não pude evitar uma sensação de déjà vu e de um regresso aos anos de 2011/2012, com os movimentos espontâneos que então surgiram, primeiro na Europa (Indignados, Acampadas e Movimento 15M), também com epicentro em Madrid, e mais tarde nos EUA (Occupy Wall Street), todos eles também resultantes de grande insatisfação social e de revolta contra as disparidades económicas - ver aqui e aqui. Também em Lisboa surgiu uma acampada em Maio de 2011, que, embora tenha durado menos de duas semanas, acabou por ter algumas extensões em assembleias populares e movimentos políticos até meados de 2012 - ver p.ex. aqui e aqui. Atendendo a que esses movimentos não conseguiram de facto induzir as transformações sociais desejadas e a que as condições de vida para muitos jovens não só não melhoraram como até se agravaram, não consigo evitar um certo cepticismo em relação aos movimentos actuais – não só porque as políticas governativas não mudaram significativamente, mas também porque as reivindicações e as dinâmicas dos protestos de rua permanecem quase inalteradas. O meu sentimento de desalento é agravado por me aperceber que o carácter espontâneo e auto-organizado como os protestos surgem e a energia vibrante dos corpos lado-a-lado acabam por ser distorcidos ou desvirtuados pelos media e pelo discurso dos governantes, e vão sendo manipulados ou cooptados por diferentes forças políticas e partidos. Uma das narrativas que surge, quase pavlovianamente, por parte de governantes e de partidos à direita é a de que os protestos são incitados por forças da extrema-esquerda radical, que pretendem instalar o caos social. É certo que os partidos de esquerda acabam por apoiar estes protestos (por vezes, com algum aproveitamento político ou cooptando os próprios movimentos, como aconteceu em 2011/2012), mas aquela narrativa serve essencialmente para tentar descredibilizar os movimentos.

Occupy Wall Street, 2011 (c) Darin Oswald/AP

Um outro problema da situação a que chegámos é que fomos deixando a pressão social subir a níveis insuportáveis porque nos têm vindo a prometer que a “normalidade” está sempre ao virar da esquina. Acresce que nestes momentos de grande tensão, diferentes sectores da opinião pública ficam muito crispados e zangados e há menos possibilidades de pensar ou agir com clareza e sensatez. E claro que os populistas da direita se aproveitam, acenando com os seus habituais bodes expiatórios... Acontece ainda que o ressentimento social acumulado é demasiado grande para com aqueles que (mais à direita ou mais à esquerda, mas quase sempre ao centro…) prometiam que tempos melhores viriam se votassem neles. E assim andamos há décadas, a empurrar as mudanças estruturais (radicais e profundas) de que precisamos para as calendas, porque não há políticos (de ‘esquerda’) com coragem de as propor, já que iriam implicar muita insatisfação e até revolta duma larga franja da população que ficou conformada, acomodada ou mal habituada às pequenas mordomias do “progresso”. As mudanças estruturais em que estou a pensar não são as infames medidas de austeridade implementadas durante a década de 2010 e seguinte, mas trata-se antes de políticas corajosas que reinventassem um pacto social verdadeiramente transformador – ver p.ex. aqui ou aqui.


Também tenho sentido falta de ouvir vozes que façam notar que muitas das reivindicações que se ouvem nas ruas são algo simplistas ou até ingénuas - melhores condições nas escolas, mais professores, mais acesso à universidade... Mas para estudar o quê e para quê? E que tipo de ensino é que se mantém na escola pública? Para aprender a ser um bom cidadão e ter um bom emprego? Ou então as reivindicações de melhores salários, da redução do preço das casas, do fim à especulação imobiliária… É que sem mexer no sistema socioeconómico e no sistema financeiro, não estou a ver como é que isso se consegue?!... Então porque não ser mais ousado e dizer que queremos outra escola, outra universidade, outra economia, outra sociedade? Em alguns dos países (Espanha, França) onde ocorrem os protestos aproximam-se eleições – mas alguém acredita que irão resolver alguma coisa ou levar à implementação de medidas de fundo radicais? Uma coisa é sabida: o descontentamento popular será usado como arma de arremesso – ora mais à direita, prometendo aumentar a repressão e a austeridade, ora mais à esquerda, prometendo reformas socialmente justas, mas sem reformar o sistema eleitoral, os partidos, a democracia ‘representativa’, os bancos, os mercados…

Gui Castro Felga (2011)

Dito isto, não posso deixar de relembrar que as manifestações de rua e acampadas (as de 2011/2012, mas também as de agora) representam importantes ensaios de tomada de consciência colectiva, de um levantar do véu que ocultava a engrenagem por detrás da crise financeira de 2008 e revelava os mitos do neoliberalismo e do “desenvolvimento” económico. Constituem também experimentações de outras formas de criar corpo colectivo e de outras formas de estar-pensar-fazer juntos, para além da política partidária. Após 2012, aquela janela que se tinha (entre)aberto voltou a fechar-se – com alguns momentos esperançosos pelo meio, como os movimentos climáticos de 2019 e os questionamentos sobre o que era afinal a “normalidade” durante a pandemia. Entreabre-se agora novamente uma janela, pois as manifestações de descontentamento nas ruas são contagiantes e têm inspirado solidariedade de largos sectores da sociedade. No entanto, não me parece nada evidente qual será o desfecho da libertação de toda essa energia reivindicativa. Como veremos na 2ª parte, há os que vêem os protestos como caminhos para uma transformação colectiva, os que lhe atribuem um carácter emancipatório e ainda os que temem que intensifiquem a atomização e balcanização social crescentes ou que contribuam para fortalecer as forças autoritárias e reacionárias da chamada extrema-direita (ver também Nota 2).

Nota 1: Mais recentemente, os jovens alemães (“Gen Z regelt”) realizaram manifestações em diversas cidades do país alargando a contestação aos cortes sociais e ao aumento do custo de vida, questionando as prioridades de investimento do governo alemão no reforço militar e na preparação para a guerra – ver aqui, aqui ou aqui.

Nota 2: Encontra-se em exibição o documentário "Mi País Imaginario" (O Meu País Imaginário), o último filme do realizador chileno Patricio Guzmán (falecido em Setembro), que retrata os grandes movimentos de revolta civil ocorridos no Chlie em 2019/2020 com motivações semelhantes às que vemos agora surgir na Europa. Essa convulsão social culminou com a eleição do jovem presidente Gabriel Boric que prometia reformas sociais e ambientais. O seu governo não cumpriu as promessas e no final de 2025 foi eleito um presidente ultraconservador (José Antonio Kast), admirador de Pinochet - ver também aqui e aqui.

(continua)

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O espectáculo grotesco de mais uma Assembleia Geral das Nações Unidas

(C) Michael Kappeler (DPA)
Decorre até amanhã (25 de Setembro) a 81ª Assembleia Geral (AG) da ONU, sob o tema “Restoring Trust, Managing Transformation: A United Nations that delivers for all”. Os prognósticos já não eram muito animadores (p.ex. aqui ou aqui), mas o que se passou até agora não contrariou essas expectativas. A intervenção inaugural de António Guterres, a última como Secretário-geral, não destoou de anteriores discursos onde tentou expressar o seu descontentamento (e a sua frustração) em relação ao estado calamitoso da ordem internacional perante as potências que ditam as suas próprias regras – mensagens indirectas aos EUA e a Israel, mas também à Rússia (p.ex. aqui ou aqui). Mas o lado mais grotesco e degradante desta peça de teatro político internacional acabou por revelar-se nos dias seguintes.

O discurso abominável, ofensivo e boçalmente narcísico de Trump foi amplamente criticado: análises publicadas durante a AG destacaram o tom de confronto, o uso de ameaças militares e a transformação da política externa americana numa extensão da sua personalidade (ver aqui, aqui ou aqui). Desde a ameaça directa ao Irão, à humilhação da Venezuela e Cuba, tudo valeu na sua verborreia de auto-vangloriação. O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney (o mesmo que admitiu no início do ano em Davos que a “ordem internacional baseada em regras” liderada pelo Ocidente e dominada pelos EUA era uma ‘ficção conveniente’– ver aqui), resumiu a percepção de muitos aliados políticos ao dizer que já não conseguem “controlar a tempestade” que sopra de Washington. Lula da Silva, no discurso de abertura, respondeu à ideia de uma América Latina subordinada aos EUA afirmando que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Infelizmente, a realidade mostra um statu quo bem mais sinistro e deprimente…


Quanto à presença de Netanyahu, a vergonha é ainda maior, bem como o descrédito a que fica sujeita a própria ONU. E nem os discursos de Guterres ou Macron foram suficientemente incisivos para contrariar essa percepção (ver aqui ou aqui). Recordemos que em Setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza e que Netanyahu, Isaac Herzog e Yoav Gallant incitaram a prática desse crime (ver aqui). A própria ONU publicou essa conclusão oficialmente (ver aqui). No entanto, aquela Comissão é um mecanismo de investigação do Conselho de Direitos Humanos e não um tribunal. A decisão judicial definitiva sobre a responsabilidade do Estado de Israel ainda cabe ao Tribunal Internacional de Justiça; e o processo iniciado pela África do Sul continua sem sentença final sobre o mérito das suas alegações. As medidas provisórias do Tribunal, contudo, são vinculativas e já reconheceram um risco plausível de genocídio, ordenando acções para impedir atrocidades abrangidas pela Convenção e permitir a entrada de ajuda humanitária (ver aqui). Mas que não foram implementadas no terreno por bloqueio de Israel (ver aqui).

É precisamente neste contexto que a presença de Netanyahu na AG se torna institucionalmente escandalosa: a ONU mantém no seu espaço central um chefe de governo que uma comissão oficial do seu próprio sistema de direitos humanos apontou como responsável, ou potencialmente responsável, por incitação ao genocídio, enquanto ele também é alvo de um mandado do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade (ver aqui e aqui). Por seu lado, os dirigentes ocidentais confirmam a sua hipocrisia e cobardia ao não assumirem uma censura clara – com excepção das poucas delegações (Eslovénia, Espanha, Irlanda, San Marino) que se ausentaram da sala antes de Bibi ter tomado a palavra (ver aqui). Os únicos protestos dignos desse nome ocorreram, como em anos anteriores, fora de portas (ver aqui).


A explicação jurídica — Israel continua membro da ONU, e não existe uma regra automática que exclua da Assembleia o representante de um Estado acusado por um órgão da ONU — explica como isto pode ocorrer. Mas não elimina a contradição política e ética: a ONU afirma que o direito internacional exige prevenção, responsabilização e punição, ao mesmo tempo que oferece a Netanyahu uma tribuna diplomática e os privilégios necessários para utilizá-la. É uma das expressões mais claras do abismo entre normas internacionais proclamadas e capacidade (ou vontade) de aplicá-las. Efectivamente, a sua aplicação depende frequentemente da vontade das grandes potências. Quando um Estado aliado pode violar princípios fundamentais sem consequências proporcionais, enquanto adversários sofrem sanções, bloqueios ou processos, a ética internacional parece reduzida a um instrumento seletivo de poder. Pode não ser letra morta, mas está na prática subordinada à correlação de forças. A Declaração Universal dos Direitos Humanos funciona como parâmetro moral e jurídico para denunciar abusos, mas não como garantia automática de proteção. O escândalo não reside apenas em haver violações; está no facto da comunidade internacional afirmar que certas violações são intoleráveis e, depois, abrir exceções quando o infrator é sistematicamente protegido politicamente. O desiderato de restaurar a confiança ao nível das relações internacionais, como sugerido pelo tema desta AG, parece-me pois cada vez mais longe de ser cumprido - e não será com certeza alcançado mantendo a actual estrutura da ONU e o desequilíbrio de poderes existente.

Nota: este curto vídeo da Aljazeera faz uma compilação das distorções e falsidades de Bibi nos seus discursos (denunciadas igualmente em anos anteriores - ver aqui), demonstrando também a sua arrogância e prepotência.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Escutar como uma árvore

“There are places where the boundary between matter and spirit blurs. Not dissolves, not vanishes, but blurs in a way that invites a new form of clarity, one that doesn’t depend on sharp lines or final answers, but on presence. I know these places. Plants have shown me.” (Há lugares onde a fronteira entre a matéria e o espírito se torna ténue. Não se dissolve, não desaparece, mas torna-se ténue de tal maneira que convida a uma nova forma de clareza, uma clareza que não depende de linhas nítidas ou de respostas definitivas, mas de presença. Eu conheço estes lugares. As plantas mostraram-me.) Monica Gagliano

É raro termos a oportunidade de assistir em exibição comercial a um filme de ficção cuja narrativa nos convide a testemunhar e a reflectir sobre os entrelaçamentos complexos entre humanos e plantas. Aconteceu-me recentemente com o filme “A Amiga Silenciosa” (Stille Freundin, no original) da realizadora húngara Ildikó Enyedi. Trata-se de uma obra de uma sensibilidade estética e poética pouco usuais, que entrecruza três histórias passadas no mesmo local, mas separadas temporalmente. O filme invoca e explora de forma ora mais contemplativa, ora mais concreta, os possíveis paralelismos ou conexões entre a sensibilidade, a cognição e a consciência em plantas e humanos – temas que aflorei num post anterior. As personagens humanas de cada história são seres solitários ou "fora da caixa", com algumas dificuldades (ou antes, desajeitamentos) nas relações com os seus semelhantes, mas que, levados pela sua curiosidade e sensibilidade incomuns, se deixam tocar e envolver pelo mundo das plantas, cada um/uma à sua maneira. Mas a personagem comum às três histórias é, na verdade, uma árvore centenária da espécie Ginkgo biloba, realmente existente no Jardim Botânico do campus da Universidade de Marburgo, na Alemanha, que serve de cenário à narrativa. Vamos assistindo a diversos entrelaçamentos entre as personagens humanas e a árvore (ou outras plantas), que vão sendo revelados ao longo do filme. Em particular, o neurocientista de Hong Kong da história contemporânea (Tony) partilha com aquela árvore um deslocamento geográfico e cultural, exacerbado pela escolha do início da pandemia de 2020 como contexto narrativo.

Tony Leung e Ildikó Enyedi

Convém notar que aquela espécie terá sido trazida da China para a Europa ainda no século XVIII como curiosidade botânica, permanecendo, nos jardins em que foi plantada, desligada do seu contexto original e sem possibilidade de interagir com outros membros da sua espécie. Acontece que uma particularidade das Ginkgo é serem plantas dioicas, ou seja, com indivíduos femininos e masculinos separados (ver p.ex.
aqui). A Ginkgo centenária do filme é um indivíduo feminino e uma cena memorável mostra o neurocientista Tony, auxiliado pelo segurança do campus, a polinizarem manualmente a árvore - um evento inédito na sua vida, dada a inexistência de indivíduos masculinos na proximidade, e que gera uma explosão fisiológica e sensorial na árvore. Uma outra singularidade das Ginkgo é possuírem gâmetas masculinos móveis (ausentes em todas angiospérmicas e na maioria das gimnospérmicas), característica que partilham com outras plantas ‘primitivas’ como as cicas, os fetos e os musgos – facto que é ilustrado no filme e foi objecto de um maravilhoso documentário realizado no Japão sobre a evolução do sistema reprodutivo das Ginkgo: “The sea in the seed” (2000). A espécie é também considerada excepcional por representar a única sobrevivente de uma linhagem primitiva da evolução das gimnospérmicas (grupo de plantas sem flores ou frutos verdadeiros que inclui as coníferas), mas possuindo folhas de página larga (com a forma reconhecível de leque) e sementes envolvidas por tecido carnudo que fazem lembrar frutos (ver p.ex. a página da Wikipedia sobre a espécie, citada acima).


Regressando ao filme de Enyedi, um outro tema explorado pela realizadora é o da procura de uma forma de comunicação não-verbal, sensitiva e sensual, entre humanos e plantas, ora através da fotografia (protagonizada por Grete no segmento que se desenrola em 1908, ano em que foram admitidas pela primeira vez estudantes femininas nas universidades prussianas), ora por meio de sensores de estímulos eléctricos (usados pelos protagonistas dos segmentos que decorrem nos anos 1970 e 2020). Essa indagação parece surgir nas personagens do filme como uma forma de compensar ou superar o desajustamento que cada uma experiencia na comunicação ou no relacionamento com outros indivíduos da sua espécie. No caso dos segmentos passados nos anos 70, as experiências iniciadas pela personagem de Gundula e que são continuadas por Hannes reproduzem as famosas experiências realizadas com um polígrafo por Cleve Backster nos anos 60 e 70 para demonstrar a sensibilidade e a capacidade de comunicação das plantas (ver p.ex. aqui). Essas e outras experiências com o mesmo propósito são descritas no igualmente famoso livro de Peter Tompkins e Christopher Bird “The Secret Life of Plants” (1973), que vemos Gundula a ler numa cena. O livro tornou-se, na altura, um bestseller, mas foi fortemente criticado e desacreditado pelos botânicos de então (mas ver aqui). Embora muitas das alegações de Tompkins e Bird se tenham revelado infundadas, o livro faz uma crítica acertada às práticas destrutivas do modelo agrícola industrial. Mais ainda, nas primeiras décadas do presente século, a investigação sobre comportamento vegetal fez nascer um nova disciplina, a neurobiologia vegetal, que tem mostrado as extraordinárias capacidades cognitivas e comunicativas das plantas – ver p.ex. aqui ou aqui.

O filme invoca ainda diferentes questões igualmente relevantes (algumas das quais abordei no meu post de 2025), que entrecruza de forma inteligente e sensível: As plantas dispõem de sensibilidade, de inteligência ou de consciência? Será possível estabelecer comunicação entre humanos e plantas? A cognição descentralizada das plantas terá paralelo nos padrões cerebrais difusos e não-associados à linguagem que se observam em bebés mas que desaparecem nos adultos? Será possível conciliar a temporalidade de uma árvore com a dos humanos? Qual o papel da ciência e do conhecimento não-científico no nosso conhecimento sobre o mundo? O mundo académico é movido por preconceitos ou pelo desejo do conhecimento? São perguntas às quais o filme não dá respostas cabais, deixando-as antes como estímulos à curiosidade e sensibilidade do espectador. Subjacente a todo o filme está um olhar crítico sobre o zoocentrismo e o antropocentrismo, ainda reinantes quer no mundo académico, quer na sociedade em geral, e que reforçam a separação entre (muitos) humanos e o mundo natural – ver p.ex. meus posts anteriores (aqui e aqui). A realizadora fez aliás questão de incluir nos créditos finais uma listagem das espécies vegetais que surgem no filme e que excedem claramente o elenco humano.


Para quem quiser saciar a sua curiosidade sobre uma das linhas de investigação mais interessantes e desafiantes no domínio da sensibilidade, comunicação e inteligência das plantas, sugiro procurar o trabalho da investigadora Monica Gagliano, que terá servido de inspiração à personagem da Drª. Alice Sauvage (um piscar de olho da realizadora) no filme. Recomendo em particular, o seu livro de 2018 “Thus Spoke the Plant” ou um seu ensaio recente que resultou da palestra que deu em Maio de 2025 no simpósio “Thinking with Plants and Fungi” na Universidade de Harvard (do qual retirei a citação que abre este post). As suas abordagens pouco ortodoxas têm-lhe trazido o desdém de muitos biólogos vegetais mais convencionais – ver p.ex. aqui. Como Gagliano costuma dizer, podemos não saber se as plantas falam, mas há quem as saiba escutar. Para quem estiver disponível para escutar/sentir, deixando-se levar pelo ritmo e pelo registo contemplativo do filme de Enyedi, será certamente uma experiência arrebatadora e comovente.

Para fechar, transcrevo a tradução para português (de Paulo Quintela) do poema de Goethe sobre a Ginkgo, citado no filme (daqui):

Ginkgo biloba (Johann Wolfgang von Goethe, 1815)

A folha desta árvore que de Leste

Ao meu jardim se veio afeiçoar,

Dá-nos um gosto de um sentido oculto

Capaz de um sábio edificar.

 

Será um ser vivo apenas

Em si mesmo em dois partido?

Serão dois que se elegeram

E nós julgamos num unidos?

 

P’ra responder às perguntas

Tenho o sentido real:

Não vês por meus cantos como

Sou uno e duplo, afinal?

(é possível aceder à versão original e à tradução inglesa aqui)


Deixo ainda links para uma página com vários recursos sobre Ginkgo (aqui) e para artigos que apresentam diversas perspectivas sobre o filme:

Jorge Pereira Rosa: https://c7nema.net/critica/item/140012-silent-friend-podem-as-plantas-sentir.html

Hoai-Tran Bui : https://www.inverse.com/entertainment/silent-friend-reel-science-plant-intelligence

Ryan Bedsaul: https://lareviewofbooks.org/article/silent-friend-ildiko-enyedi-tony-leung-plants-technology/

Dan Schindel: https://reverseshot.org/reviews/entry/3456/silent_friend

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A Mata da Margaraça ainda resiste em 2026 – mas até quando?

Mata da Margaraça (2016)
A minha passagem pela Serra do Açor na primeira quinzena de Agosto incitou-me a escrever estas linhas, que servem de complemento ao post anterior. Estive nas encostas viradas a norte, perto das localidades de Cerdeira e Monte Frio (concelho de Arganil), onde pude testemunhar os efeitos devastadores do mega-incêndio do Piódão de Agosto de 2025 – o maior de sempre em Portugal, em termos de área ardida (cerca de 65 mil hectares, ver p.ex. aqui ou aqui), tendo-se estendido quer para sudeste (Serras da Estrela e Gardunha), quer para oeste (ver p.ex. aqui). A viagem de carro a partir de Coja (estrada N344) fez-me lembrar o que vi em 2018 quando percorri uma outra estrada que liga Coja à Benfeita, um ano após o mega-incêndio de Oliveira do Hospital (2017): uma paisagem desoladora de encostas quase desprovidas de vegetação e semeadas de troncos ardidos (ver o meu post de 2022). A diferença é que, enquanto ao longo da estrada da Benfeita (em 2018) se viam os restos carbonizados de centenas de pinheiros, este ano, ao longo da N344, viam-se predominantemente troncos de eucaliptos queimados, com novos rebentos de cor verde clara a crescer na base. De facto, ao contrário dos pinheiros que morrem após o incêndio (podendo haver regeneração por semente, mas que demora alguns anos), os eucaliptos regeneram a partir da base (rebentação de toiça) logo no ano seguinte (ver p.ex. aqui).

Encosta ardida em 2025, vista da N344 (2026)

Isto leva a que, se não houver gestão pós-fogo, os eucaliptos, assim como arbustos de desenvolvimento rápido (p.ex. giestas), voltem a crescer descontroladamente e a servir de combustível ao próximo incêndio. Não vou aqui desenvolver a polémica em volta do comportamento e do impacto das espécies pirófilas (eucalipto e pinheiro), mas remeto para o meu post de 2022 (já citado) e para uma série de artigos publicados este ano pelo semanário regional O Mirante - Projecto Eucalipto, “projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza” (apoiado pelo Journalismfund Europe e realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress) – ver aqui. Os artigos dão voz a uma pluralidade de opiniões, das quais destaco as entrevistas a Jael Palhas, investigador da Univ. Coimbra (aqui), João Joanaz de Melo, professor da NOVA e investigador do CENSE (aqui) e Miguel Jerónimo, arquitecto paisagista e técnico do GEOTA (aqui).

Vista para a Margaraça, desde a N344 (2020 vs. 2026)

Mas o meu interesse mais premente era o de perceber em que estado tinha ficado a Mata da Margaraça – bosque-relíquia das florestas caducifólias mistas (laurissilva) que cobriam as encostas das serras beirãs, com uma área de 66 hectares (ver aqui). No topo da N344, por cima da aldeia de Relva Velha, pude então avistar o que sobra da Margaraça: uma mancha de verde que contrastava com o tom acastanhado do entorno, mas mais reduzida do que em 2018, principalmente nas zonas mais altas, atingidas pelo fogo. De facto, vim a saber que, apenas oito anos depois do anterior (vide meu post de 2022), a Mata sobreviveu a novo mega-incêndio, mas com mazelas – ver aqui e aqui -, embora não tenha conseguido encontrar informação sobre a percentagem de área ardida dentro da Mata. Acontece que desta vez (ao contrário de 2018) não consegui ir ver mais de perto o que sobra da Margaraça porque a estrada que a liga a Pardieiros e a Monte Frio está intransitável, devido a aluimentos resultantes das tempestades de Fevereiro (e potenciados pelo incêndio de 2025) – ver aqui. 

Monte Frio (2026)

Portanto, o ex-líbris da Área de Paisagem Protegida da Serra do Açor está quase inacessível (é possível aceder a pé) e as obras de reparação prometidas continuam por fazer, aparentemente devido a impasse entre o ICNF e o Município de Arganil – ver aqui. De realçar que, segundo dados do Ministério do Ambiente e da Energia, 94% (350 ha) da área da Paisagem Protegida da Serra do Açor terão ardido em 2025, tendo a Margaraça sido “um verdadeiro oásis no meio do grande incêndio” - ver aqui. Mas a este ritmo, por quanto mais tempo resistirá o “oásis”? A questão é que a Mata só persiste porque reúne características únicas que lhe conferem uma capacidade de resistência e de regeneração notáveis: a combinação de um coberto vegetal denso, rico em folhosas (mistura de carvalhos, castanheiros, aveleiras, azereiros, loureiros, etc.), que impede a entrada de ventos fortes no interior do bosque, mantendo o ambiente interno fresco e protegido, aliado a um microclima local e a uma orientação do vale que conservam muita água no solo e no ar, agindo como um travão natural contra o fogo – ver aqui ou aqui. Mas esta resiliência tem limites e com a frequência dos incêndios na região e a inexistência de campanhas sustentadas de regeneração florestal, pode não sobreviver a novo mega-incêndio.

Imagem respigada daqui

Em 2020, foi lançado um projecto de reflorestação (Projeto Floresta da Serra do Açor), financiado pelo Grupo Jerónimo Martins em parceria com o Município de Arganil, comunidades locais (baldios) e a Escola Superior Agrária de Coimbra, que pretende abranger uma área de 2500 hectares até 2060, contando com um investimento de 5 milhões de euros – ver aqui e aqui. Um dos primeiros objetivos seria plantar mais de 1,8 milhões de árvores de espécies como o pinheiro-bravo, o sobreiro, o castanheiro, o carvalho e o medronheiro até 2026. Entre 2020 e 2023, este projeto de reflorestação terá plantado 697 mil novas árvores (ver aqui). O projecto venceu o Prémio Nacional da Paisagem 2025 (atribuído pelo governo), mas o incêndio de Agosto de 2025 terá afectado cerca 100 hectares da área reflorestada (ver aqui). Paralelamente, o ICNF também iniciou em 2021 um Projecto de Recuperação da Área Ardida na Paisagem Protegida da Serra do Açor com a duração de 3 anos que incluía a limpeza de matos e de lenha ardida, e o controlo de espécies invasoras, para além da reflorestação, resultante de um investimento público de 560 mil euros – ver aqui e aqui. Estou bastante céptico relativamente a estas iniciativas, que parecem nem sequer estar coordenadas.

Foto respigada daqui

A época de incêndios de 2025 em Portugal foi das mais devastadoras (com cerca de 270000 hectares ardidos), só superada pela de 2017 (537000 hectares) – ver aqui. Até ao dia 15 de outubro, o ano de 2025 apresentou o 4.º valor mais reduzido em número de incêndios (cerca de 8200) e o 2.º valor mais elevado de área ardida, desde 2015. O que quer dizer que houve mais mega-incêndios: de facto, registaram-se 96 incêndios com mais de 100 hectares, que resultaram em 258000 hectares de área ardida, cerca de 96% do total. Só o incêndio de Piódão/Arganil representou 24% da área total ardida (até 15 de Outubro) e, em conjunto com o de Trancoso (47000 ha), representaram 42% do total. Para comparação, a área total ardida este ano no país (até 15 de Agosto) foi de 56600 ha, ou seja, menos do que a área consumida só pelo incêndio do Piódão em 2025 (ver aqui). Mas há mais sinais preocupantes escondidos por detrás dos números. Em 2025, arderam 30000 ha da Rede Nacional de Áreas Protegidas (11% da área total ardida), com graves impactos ecológicos – ver aqui. Só o mega-incêndio de Piódão atingiu pelo menos três áreas de paisagem protegida: a da Serra do Açor (onde se inclui a Margaraça), a da Serra da Estrela e a da Serra da Gardunha. É caso para perguntar porque insistimos em apelidá-las de “áreas protegidas” se não conseguimos efectivamente protegê-las - nem dos incêndios, nem das espécies invasoras… 

Encosta sul da Serra do Açor, coberta de acácias (2026)

Em termos europeus, os dados divulgados pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), revelaram que em 2025 arderam mais de 1 milhão de hectares, a maior área ardida alguma vez registada pelo EFFIS na UE – ver aqui. De facto, representou o dobro da média na UE, tendo o pico principal ocorrido em Julho e Agosto, quando alguns dos maiores incêndios do ano foram mapeados em Espanha e Portugal. A situação agravou-se drasticamente durante o verão onde uma vaga de calor prolongada em Agosto deu origem a 22 grandes incêndios só em Portugal e em Espanha, queimando 460000 hectares – quase metade da área total ardida da UE. Os dados do EFFIS também revelam que em Portugal mais de 50000 ha arderam em zonas Natura 2000, o que representa mais de 2% da área total deste tipo de zonas. A notícia da RTP citada revela ainda que “a Comissão Europeia adoptou em 2026 uma nova estratégia para combater o aumento da ameaça de incêndios florestais que abrange todo o ciclo de risco de catástrofes – prevenção, preparação, resposta e recuperação – e estabelece ações concretas a nível nacional e da UE. A estratégia promove a existência de paisagens resistentes aos incêndios através da gestão sustentável dos solos e da restauração da natureza, reforça o alerta precoce e a monitorização através do EFFIS e do Copernicus e aumenta a capacidade da UE de combate a incêndios através de uma frota de aeronaves de combate a incêndios, do pré-posicionamento de bombeiros e de uma nova plataforma europeia de combate a incêndios com sede em Chipre”. Pelo descalabro dos incêndios que se está a registar este ano por toda a Europa, em que Portugal é a excepção (ver o meu post anterior), a nova estratégia europeia não parece estar a dar grandes resultados.

Serra do Açor (2026)

Para concluir num tom mais positivo, posso dizer que estive este ano em duas outras zonas do país com belíssimos exemplares de florestas relíquia, que têm sobrevivido aos incêndios e cuja visita recomendo: o Adernal do Bussaco (Mata Nacional do Bussaco),
 o maior conjunto de adernos de porte arbóreo do mundo, relíquia de um dos tipos de florestas mediterrâneas que cobriam parte do território (ver aqui, aqui ou aqui), e a Mata da Albergaria (Parque Nacional da Peneda-Gerês), uma relíquia das florestas mistas das zonas montanhosas do norte (ver aqui ou aqui). Estar demoradamente nestes lugares é uma experiência maravilhosa e marcante – devia ser local de peregrinação obrigatória de políticos e opinadores, e de muitos daqueles que não têm noção da riqueza que está ali (não mensurável em euros) e cuja perda é irreparável.

Adernal do Bussaco (2026)

Mata de Albergaria (2026)


quinta-feira, 30 de julho de 2026

A urgência de uma visão sistémica para enfrentar a Era do Fogo

(C) Maximilien Lamy/AFP
A “época de incêndios” tem estado ao rubro na Europa nestas últimas semanas, mas este ano (até agora…) não é Portugal que está na ribalta mas sim, principalmente, a Espanha e a França, com mega-incêndios a assolarem os dois países – ver p.ex. aqui ou aqui. As notícias e reportagens das cadeias internacionais focam-se essencialmente no dramatismo dos impactos humanos: pessoas afectadas directamente ou deslocadas, campos agrícolas e negócios destruídos, a proximidade de grandes cidades, os esforços heroicos dos bombeiros no combate às chamas. O adjectivo ‘unprecedented’ (sem precedentes) é usado ad nauseam para nomear aquelas calamidades, como foi também usado para caracterizar as recentes ondas calor naqueles países – para além de não corresponder à verdade, só vai alimentar os ‘negacionistas climáticos’, que vão alegar que se trata de exageros dos ‘ecologistas fanáticos’… - ver p.ex. este meu post de 2023. Admito que estas abordagens sejam lícitas e até expectáveis, mas, como escrevi anteriormente (post de 2022), naquelas reportagens lamenta-se muito menos os milhares de árvores e outras plantas ardidos, os solos destruídos e as paisagens devastadas. Há um vilão que surge reiteradamente em muitas narrativas noticiosas: a mudança climática (antropogénica) e as ondas de calor associadas - ver p.ex. aqui. É inegavelmente um factor potenciador, mas como escrevi no post de 2022 já citado, não é a causa profunda do descalabro que se repete ano após ano. A sua identificação requereria uma análise sistémica que os media (na sua maioria) não se dispõem, ou não se atrevem, a fazer (mas ver no final deste post). Como defendi, aquela causa prende-se com uma conjugação de factores: o desastre da gestão e ordenamento do território (com erros acumulados semelhantes nos diferentes países), poderosos interesses económicos instalados e o modelo económico dominante que privilegia o curto-prazismo do lucro fácil e a ganância sem freios. Estes dois últimos factores estão também na raíz da incapacidade ou da inércia política na mitigação da crise climática e da crise ambiental – ver p.ex. o meu post de 2023 citado acima. Mesmo um projecto jornalístico dedicado às questões ecológicas como o francês Reporterre, tem insistido agora muito mais nos impactos humanos directos e no papel da mudança climática (apoiando-se em dados históricos sobre a evolução dos incêndios), do que no ordenamento do território – ver p.ex. aqui. No entanto, em 2025, tinha entrevistado a filósofa francesa Joëlle Zask (aqui), que deu destaque ao papel central da gestão florestal desastrosa em França (e noutros países), para além do efeito intensificador da mudança climática. De notar que muitos media insistem em chamar ‘florestas’ às monoculturas de pinheiro (ou de outras árvores de produção), que surgem por exemplo nas imagens das reportagens do mega-incêndio na Gironda, uma designação enganosa e perniciosa que também é usada recorrentemente nas notícias dos OCS nacionais sobre os incêndios dos últimos anos.

Recomendo a leitura (ou releitura) dos meus posts de 2022 (já citado) e de 2023 (aqui) sobre o tema dos incêndios estivais - neste último desenvolvo o conceito de Piroceno (a Era do Fogo) proposto pelo historiador norte-americano Stephen J. Pyne. Joëlle Zask também usa a mesma designação (ver aqui) mas, enquanto Pyne se foca na evolução histórica e ecológica, Zask centra-se mais nas causas político-económicas (modelo económico capitalista e mercantilista, abandono do interior, mentalidade tecnocrática) e na filosofia cívica (passividade, alienação).


Sugiro também a leitura de um artigo de opinião de Nuno M. Santos (especialista em planeamento regenerativo) escrito a propósito das tempestades de Fevereiro, mas que versa também o flagelo estival dos incêndios, defendendo que ambos estão estreitamente ligados e que a sua mitigação requer uma mesma estratégia: uma gestão sensata dos ecossistemas agroflorestais e das paisagens rurais.


Sobre os recentes mega-incêndios em Espanha e França, recomendo dois vídeos curtos dos canais internacionais France24 (aqui) e DW (aqui), que destoam do registo mais comum (sensacionalista ou simplista), recorrendo a entrevistas com convidados que transmitem visões sistémicas sobre o tema: Alexander Held (Senior Expert of the Resilience Programme for Integrated Fire Management) e Stephen J. Pyne, respectivamente.